Amor e raiva: o novo livro do Lama Rod Owen

Texto original em: https://nalandainstitute.org/2020/06/25/love-and-rage-lama-rod-owens-recent-book/#more-5901

Tradução: Fernanda Passoni


Lama Rod Owens, professor do dharma, instrutor de mindfulness e meditação (e recente professor convidado em nosso Programa de Psicoterapia Contemplativa!) explora com graça e franqueza o poder e os usos da raiva. Em seu livro recém-lançado, "Love and Rage: The Path of Liberation Through Anger" ele compartilha sua jornada pessoal com a raiva — como, ainda jovem, ele internalizou e acreditou que a sua raiva era perigosa.


Em uma publicação recente, Lama Rod compartilhou um trecho adaptado intitulado "Blackness and Anger" de seu livro que gostaríamos de compartilhar com vocês.



NEGRITUDE E RAIVA


A NEGRITUDE E A RAIVA NÃO SÃO A MESMA COISA. Eu levei anos para perceber isso.

A negritude para mim é um local de identidade que não só articula minha raça e minhas raízes africanas ancestrais, mas é uma identidade política que fala de como, aqueles como eu, sobreviveram à violência sistemática, marginalização e apagamento cultural em um contexto social que foi criado para usar meu corpo para a produção e agora vê meu corpo como dispensável. Acredito que o movimento “Black Lives" emergiu para destacar esta violência, ao mesmo tempo em que procura restaurar o valor e o cuidado às vidas dos Negros.


No entanto, esta Negritude política abrange também a vida de todas as pessoas que sobrevivem a sistemas de violência racial. A minha identidade como sendo Negro significa que estou sempre do lado daqueles de nós que são alvo de violência sistemática—incluindo, mas não se limitando, ao racismo, à "queerfobia", à transfobia, à misoginia, ao preconceito contra a pessoa com deficiência e contra a pessoa idosa—traduzindo-se num slogan pessoal meu, que é que se for marginalizado, é Negro. No entanto, a minha Negritude não é anti–brancos; é anti-opressão, incluindo a supremacia anti–branca. A minha expressão de Negritude é um reconhecimento de que somos todos doutrinados em sistemas de dominação e opressão, mas cabe às pessoas fazerem o seu trabalho de desfazer o seu papel na manutenção da dominação. Além disso, a minha expressão da Negritude é uma exigência para que este trabalho seja feito. Na minha experiência, quando brancos me ouvem ou outros falam de supremacia branca, há uma tendência para ouvir esta crítica como um ataque pessoal ao invés de um convite para entender como a branquitude na América é e continuará a ser uma expressão de dominação se não houver um esforço para questionar essa expressão. Ser branco é ser racista. Foi assim que a América foi estabelecida. Eu me sinto profundamente ferido por este sistema, e essa ferida significa que me sinto magoado com o sistema da supremacia branca, bem como com a forma como os brancos continuam a comprar este sistema.


Quando comecei a praticar meditação, tive que começar a confrontar estados mentais difíceis como a raiva. Mesmo no início de minha prática, eu sabia que minha raiva era importante e que estava ligada à dor que eu estava experimentando tendo sido criado como Negro neste país. No entanto, quando comecei a ter algum espaço ao redor da minha raiva, passei a experimentar tanta espaciosidade na minha mente ao redor da raiva que comecei a ficar preocupado se estava me tornando menos Negro! Eu sinto muita estabilidade vinda dessa espaciosidade. Alguns podem ver a minha estabilidade como apatia. No entanto, a minha experiência neste momento é ter espaço em torno do que sinto e então ter a liberdade para tomar decisões sobre como reagir ao que sinto. Quando estou chateado, sinto a energia de estar chateado, mas não estou preso numa relação obrigatória com essa energia. Esta estabilidade é uma expressão de sabedoria em relação a todas as minhas emoções. Sou Negro e também muitas outras coisas. Mas ser identificado como Negro não significa que eu também sou identificado com a raiva. Ser Negro vem acompanhado de feridas e traumas significativos por ter que sobreviver a uma cultura supremacista branca e ter que carregar o trauma trans histórico dos meus antepassados que também sobreviveram ao mesmo trauma e o passaram sem querer para mim. No entanto, por causa da minha prática de meditação, tenho uma experiência de Negritude que se baseia na resiliência, na comunidade, na alegria profunda diante da violência, e uma profunda gratidão pela minha cultura que continua a transformar a marginalização em celebração. O meu trauma e raiva ainda fazem parte desta celebração, mas não são o que a Negritude significa. Eles são apenas algumas das dificuldade de fazer parte deste sistema.


- Lama Rod Owens


Saiba mais sobre o Lama Rod Owens sobre o livro "Love and Rage no site: lamarod.com

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